É muito importante na preparação bem estruturada da dimensão humana, o enfoque mais específico ao tema da sexualidade que precisa estar de forma permanente na agenda das casas de formação, exigindo das dioceses e congregações uma equipe formativa bem montada, assim como o serviço profissional da psicologia para melhor tratar sobre este tema. A desejada integração da sexualidade de cada pessoa em formação, promove consistência nas suas experiências afetivas sociais e resguarda o sentido da missão de serviço qualificado e honesto às comunidades que tem a expectativa de receber agentes pastorais saudáveis para uma vivência religiosa salvífica.
Atualmente já é concebido como indispensável que o assunto sobre a sexualidade seja tratado no processo formativo, e de forma permanente na vida dos presbíteros, religiosos e bispos já em missão, numa perspectiva de conjunto integral e não como um aspecto à parte do desenvolvimento da pessoa. A própria Igreja orienta nesta direção, conforme expresso pelo Papa Francisco em sua Exortação apostólica amoris lætitia, em 2016, que aponta para a importância de assumir o desafio em trabalhar a educação para a sexualidade, “num tempo em que se tende a banalizar e empobrecer” esta dimensão. A educação sexual deve ser realizada ”no contexto de uma educação para o amor, para a doação mútua”, como ressalta a exortação. É necessário conceber esta dimensão da sexualidade dentro do processo global de desenvolvimento da pessoa num movimento de saída de si para o outro, da realização egocêntrica em direção ao cuidado da pessoa amada, da passagem do amor para dentro de si mesmo, rumo ao amar para fora.
O desenvolvimento saudável da sexualidade na visão da Igreja Católica hoje, através da Ratio Fundamentalis do Papa Francisco e do Documento 110 da CNBB
O Dom da Vocação Presbiteral - Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis do Papa Francisco faz um sinal evidente para que seja realizada uma formação comprometida com o autoconhecimento equilibrado do candidato, a fim de superar as percepções distorcidas sobre si mesmo e sobre sua história de vida. Tal orientação é contemplada mediante a preocupação significativa que a formação humana seja “fundamento de toda a formação sacerdotal” e garanta “o crescimento integral da pessoa”, no intuito do formando ser conduzido para a “constituição de uma personalidade estável, caracterizada pelo equilíbrio afetivo, o domínio de si e uma sexualidade bem integrada”. (para o Clero, 2017, n. 94).
As Diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil – Documento 110 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), também visualizam de maneira acertada e necessária, que o cabedal formativo dos seminários e casas de formação para a vida religiosa, inclua assumidamente condições para o jovem vocacionado trabalhar o desenvolvimento saudável da sua sexualidade. Tal assertiva pode ser constatada ao afirmar que “os candidatos, de modo geral, encontram-se na fase da construção da personalidade, o que envolve a própria sexualidade. Entre os jovens, alguns podem apresentar insegurança na identidade sexual, que fragmenta a própria personalidade e a vida psíquica”. (CNBB,2018, n. 27).
Segundo Bolfe (2020), a Igreja no Brasil sempre sinalizou uma preocupação diferenciada na formação humana dos futuros religiosos, em que os formadores devem ter um olhar personalizado para o vocacionado, sempre na perspectiva de considerar a história de vida, as vivências da sexualidade, a personalidade e as suas limitações. Repercutindo sobre o documento 110 da CNBB, Bolfe (2020) reflete que no desenrolar da trajetória do formando, é preciso fomentar a consciência de que o investimento no seu amadurecimento humano permanente, servirá de sustentação para que promova condições suficientes ao lidar com as renúncias e desafios, transformando-os em manancial de realização pessoal. O mesmo autor ainda sinaliza para que se afirme um compromisso perene e prioritário da Igreja, de provocar e desenvolver proposições que promovam uma capacitação permanente integral. Neste ambiente, entre formandos e formados, haja a possibilidade de ser desenvolvido um “sentimento de pertença”, incentivado pelas vivências relacionais entre seus membros como de uma família, em que se possa experimentar o afeto fraterno.
A afetividade como canal social da sexualidade e caminho saudável de integração na vivência celibatária
Um dos componentes fundamentais da estrutura da sexualidade é a afetividade, que precisa ser concebida como o canal social da sexualidade que favorece a integração, garantindo unidade, liberdade e maturidade. A vivência saudável e amadurecida da afetividade promove o empoderamento para beneficiar a condução nas relações interpessoais, bem como para a superação das dificuldades e a segurança em lidar consigo e com a missão na vida consagrada. É por intermédio da experiência afetiva, que pode ocorrer a vivência da energia positiva da sexualidade através das expressões de carinho nas relações de amizade, companheirismo e doação nos contextos apostólicos inseridos no convívio com as comunidades.
Dentro da jornada formativa, que demanda o comprometimento com a vida celibatária, o mecanismo da afetividade promove a inteira possibilidade da experiência da sexualidade, sem necessariamente, o exercício da genitalidade, que é outra dimensão importante que compõe o conjunto da sexualidade. A vivência possível, necessária e saudável da afetividade na vida religiosa e sacerdotal é o fio de ouro que conduz o convívio benéfico com a própria sexualidade, para a integração, maturidade e consequente predisposição amadurecida nos relacionamentos em geral. E dentro desta trajetória de assumir por inteiro o compromisso com a maturidade para a vida de castidade, torna-se uma prerrogativa intrínseca que o candidato tenha absoluta consciência de que este processo demanda obrigatoriamente da soma de sua própria vontade com a liberdade responsável.
No âmbito da afetividade, a maturidade afetiva do formando é o ponto fulcral para a educação e vivência de um amor autêntico e responsável, tendo-o como objeto central da realidade humana na sua totalidade, ou seja, englobando-o física, psíquica e espiritualmente. A compreensão realista do amor como realidade central da pessoa é o que permite ao ser humano realizar a sua vocação na perspectiva da sexualidade, de forma a gerar pertença e expressá-la por meio da fidelidade. (Da Silva, 2022).
A Psicologia como ferramenta para a maturidade da sexualidade
Dentro deste universo da formação para vida religiosa, as questões relacionadas à dimensão da sexualidade, é uma das demandas comuns nos encaminhamentos para os serviços de psicologia, como a avaliação psicológica, formação e psicoterapia. De fato, esta é uma preocupação assumida pela Igreja para com os seus candidatos e formandos, e porque não dizer, com seus membros em formação permanente. Sob a inspiração de Santo Tomás de Aquino, que nos propõe a ideia da graça que supõe a natureza humana, é preciso considerar o suporte no intuito de trabalhar a estrutura da pessoa nos seus aspectos psicológicos para que a experiência religiosa individual possa acontecer da melhor maneira possível – a crença na vivência com o sobrenatural não dispensa o natural, mas antes, pressupõe-no. Antes mesmo do encaminhamento para o suporte da psicologia, motivado por esta dimensão sexual, a concepção tomasiana precisa ser vivenciada dentro do processo formativo como uma máxima que facilite a todos lidar com o tema sob o prisma inicial da humanidade. É imprescindível que o tabu ainda existente dentro de muitas instituições formativas eclesiais, assim como na sociedade em geral, não faça predominar um olhar negativo sobre a sexualidade, como se fosse uma realidade a ser tratada à força repressiva, e existisse algo dentro de cada um a ser vencido, como um inimigo num campo de batalha, que ameaçasse o tempo todo a boa vivência da castidade. A bem da verdade, é deste conflito interno, da luta contra si mesmo, que surgem as demandas para o trabalho psicológico, em especial, e mais comuns, as que se associam com a necessidade de bem lidar com os impulsos sexuais nos relacionamentos, assim como perante a realidade da masturbação e o mal-estar com a homossexualidade. A ajuda terapêutica, especialmente a psicoterapia, pode proporcionar um aprofundamento maior para o conhecimento do desenvolvimento e estrutura da sexualidade do indivíduo, favorecendo a aceitação da sua realidade e gerando recursos pessoais para que se estabeleça um convívio saudável de integração sexual, com as aspirações para vida celibatária na vocação à vida religiosa e presbiteral.
O primeiro e mais importante espaço de crescimento tem que ser a instituição formativa, com seus recursos possíveis para proporcionar as melhores condições para a integração da sexualidade. A demanda de investimento no amadurecimento sexual, não pode ser concebida como uma tarefa exclusiva dos especialistas fora da comunidade formativa, ao contrário, precisa ser assumida como uma ação intrínseca ao processo de formação dentro do instituto. A partir daí, somente quando seus limites extrapolarem, e já com os riscos de sofrimento psíquico aparente, a formação deve partir para o devido encaminhamento profissional rumo ao suporte com os serviços psicológicos e/ou psiquiátricos.
Garantir que a formação impacte positivamente as comunidades eclesiais e em outros meios sociais que absorvem as atuações dos formandos
Esta questão da formação voltada para a dimensão da maturidade sexual, que impactam a saúde psicológica dos formandos, assim como as suas inter-relações, precisa ser uma concepção não meramente sacada para resolver situações já transformadas em problemas e crises. Necessita ser uma conduta educativa permanente para fortalecer o desenvolvimento da pessoa em formação. Portanto, trata-se de uma medida preventiva a pavimentar o desejado percurso saudável de formação, assegurando gerações com qualidade positiva na relação entre realização pessoal e vocacional e com o serviço apropriado às pessoas que buscam a comunhão com a missão da Igreja.
A desvalorização da formação humana acarreta a escassez ou ausência de suporte em relação a educação sexual, podendo promover a facilidade para as situações de vida dupla, infidelidade com os princípios da opção, confusão no discernimento vocacional e infelicidade no projeto de realização existencial. Assim sendo, a pessoa que se nutre de uma formação fragilizada, submete facilmente as suas relações sociais com vivências negativas, colocando em perigo a missão através da qual se destina todo investimento formativo, bem como a credibilidade da Igreja, e o pior, o grave malefício na composição psíquica dos fiéis e na sua experiência religiosa. É indispensável a ajuda dos instrumentais da psicologia na promoção do autoconhecimento para a integração amadurecida da sexualidade.
É necessário destacar que o fato desastroso de uma má conduta de um agente pastoral, ocorrido na ponta final onde estão as comunidades, não pode ser tratado como um problema exclusivo do indivíduo, mas sim como uma responsabilidade institucional, intrinsecamente envolvida na formação e acompanhamento de cada um dos seus membros. Pereira & Reinoso (2017), descrevem de forma assertiva que “os problemas que ocorrem na área da afetividade não são apenas sintomas individuais. As pessoas também manifestam sintomas como expressão de uma organização institucional que os facilita, e até mesmo os provoca”. Os autores ainda apontam para a realidade das crises existentes nas dioceses ou nas congregações, que podem repercutir diretamente nas realidades dos ambientes formativos, como “numa verdadeira caixa de ressonância”.
Não existe outro caminho para melhor lidar com as consequências desastrosas de uma formação deficitária do que a atitude madura de reconhecimento das próprias fragilidades institucionais, da justa coragem de responder pelos atos errados e criminosos, bem como a vontade política de ajustamento dos processos formativos para melhor embasar suas devidas inspirações de uma preparação mais adequada e salutar dos seus futuros quadros.
Não existe outro caminho para melhor lidar com as consequências desastrosas de uma formação deficitária do que a atitude madura de reconhecimento das próprias fragilidades institucionais, da justa coragem de responder pelos atos errados e criminosos. Nesta mesma via, é preciso priorizar a vontade política de ajustamento dos processos formativos, para melhor embasar suas devidas inspirações de uma preparação mais adequada e salutar dos seus futuros quadros. Que os erros, desde os menores, aos mais significativos, em forma de escândalos ocorridos, sejam transformados em propósitos inegociáveis para uma ampliação da consciência de maiores investimentos na formação humana, como oportunidade de desenvolvimento e segurança na opção vocacional sedimentada na maturidade e no crescimento. Tudo para o bem dos que querem servir, assim como para o bem, ainda maior, do povo de Deus que precisa e merece ser muito bem servido.
(Texto a partir do seu livro de 2023 pelas Ed. Loyola, “A psicologia na vida religiosa e sacerdotal. Por uma formação humana de qualidade”).
Ivan Rodrigues é psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia Clínica e da Saúde e especialista em Avaliação Psicológica. Professor da Faculdade Jesuíta (FAJE) no curso de Especialização em Espiritualidade Cristã e Orientação Espiritual, membro do ITA (Instituto Acolher) e autor do livro “Da caverna para a Luz - uma história sobre autoconhecimento “, lançado em 2026 pelas Ed. Loyola.
Bolfe, F. L. (2020). A Dimensão humano afetiva do presbítero nos instrumentos preparatórios aos encontros nacionais de presbíteros (1985-2018). (Dissertação de mestrado da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB (2018). Diretrizes para a Formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil (Documento 110). Brasília: Documentos da CNBB, 110.
Da Silva, A. L. R. (2022). A aplicação do Iter formativo da Nova Ratio no desenvolvimento da antropologia da vocação presbiteral (Tese de Doutorado da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).