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Foco na História: as grandes civilizações africanas. O Zaire e a ditadura de Mobutu Sese Seko

Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista O termo Zaire para designar um país da África é usado em dois contextos históricos: Era o antigo nome do país que...

Foco na História: as grandes civilizações africanas. O Zaire e a ditadura de Mobutu Sese Seko

Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista

O termo Zaire para designar um país da África é usado em dois contextos históricos: Era o antigo nome do país que hoje é conhecido como República Democrática do Congo (RDC) e também usado para designar a histórica província no noroeste de Angola.

Entre 1971 e 1997, a atual República Democrática do Congo (RDC) foi renomeada Zaire pelo ditador Mobutu Sese Seko.

O nome vem de uma derivação portuguesa do termo local “nzadi ou nzere” que significa "o rio que engole todos os rios”.

Nessa região existiu o antigo e poderoso Reino do Congo, um dos maiores de toda a África. A capital, M’Banza Congo, foi fundada em 1390, sendo a maior e mais organizada cidade da África subequatorial.

Em 1482, o explorador português Diogo Cão desembarcou na foz do rio Zaire, onde ocorreram os primeiros contatos com o rei do Congo, que levaram à cristianização da região, tanto que a cidade de M'Banza Congo abrigou a primeira igreja católica da África Subsaariana, declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Depois dos portugueses veio o domínio belga sobre o Congo, período marcado por um dos regimes mais brutais da história colonial. Na Conferência de Berlim celebrada em 1885, o território foi entregue ao Rei Leopoldo II como sua colônia privada, disfarçada sob um título bonito: "missão civilizatória e humanitária".

O foco principal era primeiro a extração de marfim e depois da borracha para atender à demanda global. Para forçar o trabalho pesado, o regime impôs cotas de produção. Trabalhadores enfrentavam castigos físicos severos, espancamentos e mutilações caso falhassem em atingir as metas. Por causa das doenças, fome, assassinatos e trabalho escravo aconteceram cerca de 10 milhões de mortes nesse período.Além disso, as rquiezas minerais do Congo foram completamente espoliadas.

Devido às denúncias internacionais dos abusos o Parlamento belga retirou o controle pessoal do rei e anexou o território em 1908, transformando-o em colônia oficial. Embora os níveis extremos de violência tenham diminuído, a exploração econômica continuou, focada na mineração (cobre, urânio, diamantes), além de um forte controle cultural e discriminação institucional.

O processo de descolonização foi precipitado e, em 30 de junho de 1960, o país conquistou sua independência sob a liderança do primeiro-ministro Patrice Lumumba.

Estabelecido após a independência da Bélgica (1960), com o golpe sob Patrice Lumumba, o regime de Mobutu impôs uma política conhecida como “Authenticité”, apagando nomes coloniais, forçando também a população a abandonar os nomes cristãos em favor dos tradicionais africanos. Nese contexto, o Congo foi transformado em Zaire.

A era de governo de Mobutu ficou marcada pelo seu estilo extravagante e autoritário de atuar. Ele adotou para si um extenso nome africano, Mobutu Sese Seko Kuku Ngbendu Wa Za Banga, e promoveu uma ideologia que buscava africanizar a cultura do país. Ele ainda promoveu a "Mobutização" da sociedade envolvendo a exibição de sua imagem por toda parte, desde notas de dinheiro até relógios e, além disso, sua palavra era lei.

Sob o regime de Mobutu, o Zaire viu cescer a corrupção em níveis inimaginaveis, a má administração econômica e uma repressão brutal de opositores políticos. Mobutu acumulou uma riqueza pessoal significativa, enquanto a maioria dos cidadãos do Zaire vivia na pobreza.

O regime de Mobutu chegou ao fim em 1997, quando Laurent-Désiré Kabila liderou uma rebelião apoiada por vários países vizinhos para derrubá-lo. Isso marcou o início de um período conturbado na história com conflitos e instabilidade persistente. Depois dele o nome do país voltou a ser Congo.

O legado de Mobutu continua a afetar o Congo até hoje, com desafios significativos, incluindo instabilidade política, corrupção, problemas econômicos e sociais. O país passou por várias mudanças desde a queda de Mobutu, incluindo a transição para uma república democrática, mas ainda enfrenta desafios complexos enquanto busca estabilidade e desenvolvimento.

Por outro lado, o passado colonial tem sido alvo de reavaliações e debates profundos nos últimos anos. O Rei Philippe da Bélgica expressou "profundo pesar" pelas feridas históricas do período colonial, e estátuas de Leopoldo II foram alvo de protestos e remoções.

Nos últimos tempos leste do país vive um cenário de guerra civil e tensão regional, com confrontos intensos entre o exército congolês e grupos rebeldes, como o M23. Ruanda é frequentemente acusada de apoiar os rebeldes do M23, o que mantém a região em constante instabilidade e risco de escalada militar.

O aumento da violência e os abusos dos direitos humanos deslocaram milhões de pessoas internamente. Tentativas de mediação, como as conversações em Luanda, têm sido buscadas para tentar pacificar a região.

E para complicar, a República Democrática do Congo (RDC) enfrenta agora no primeiro semestre de 2026, uma grave crise humanitária e de segurança, agravada pela emergência de saúde global. O país lida com o recrudescimento de um surto de ebola na região, A situação levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar emergência de saúde pública internacional, último estágio antes da declaração de epidemia. 

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