Padre José Inácio de Medeiros, CSsR - Instituto Histórico Redentorista
Já falamos aqui em outras ocasiões que para a África não pode ser aplicado o mesmo critério de periodização histórica que se usa, por exemplo, para a Europa. Enquanto a Europa cristã em sua maioria vivia a Idade Média, a África vivia em outra realidade histórica, política e cultural. Porém, é interessante o uso dessa mesma periodização para entendermos o que se passou no Continente Africano nos séculos XIX e XX e, sobretudo, o processo de sua descolonização, independência e autonomia.
Entre 1884 e 1885 aconteceu a chamada Conferência de Berlim que reuniu potências europeias, os Estados Unidos e o Império Otomano para estabelecer regras de ocupação e comércio na África, impulsionando o imperialismo e a reconfiguração colonial do continente.
Entre 1880 e 1920, nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial se deu a conquista militar e ocupação europeia. O continente africano foi dividido numa série de impérios cada um tendo uma potência como sua metrópole dominante. Nesse mesmo período em 1910 a Inglaterra concedeu independência à minoria branca na África do Sul, o que se transformari numa das das bases da triste política do apartheid.
Esse domínio colonial se manteve entre 1920 e 1960. No período posterior à Segunda Guerra Mundial, mais especialmente entre 1945 e 1960 cresceu a formação de sindicatos, associações, partidos políticos e grupos armados africanos empenhados na luta pela independência.
Impulsionado por uma série de fatores entre 1955 a 1965 aconteceu o processo de independência da maior parte dos países africanos que em alguns casos se deu de forma mais pacífica e em outros com guerras de libertação. Desta fase temos alguns fatos de destaque:
· Entre 1961 a 1974: Guerras de libertação nas colônias africanas de Portugal.
· Em 1965: Minoria branca da colônia inglesa da Rodésia do Sul promove uma “declaração unilateral de independência” e instaura um regime de segregação racial.
· De 1974 a 1975: Independência das colônias africanas de Portugal.
· Em 1980: A Rodésia do Sul passa a se chamar Zimbábue com o fim do regime de segregação racial.
· Em 1989: O Sudoeste Africano passa a se chamar Namíbia com o fim da ocupação ilegal pelo regime sul-africano que sucedeu à dominação alemã.
· Em 1994: Fim do sistema de segregação racial, apartheid, na África do Sul; Nelson Mandela vence as primeiras eleições democráticas para presidente.
· Anos 2000: Movimento conhecido como “Primavera Africana”, com a ação de movimentos populares de libertação em vários países do norte da África derruba ditaduras e governos.
O processo de descolonização foi longo e dolorido em várias das antigas colônias. Se em alguns casos as elites privilegiadas africanas se organizavam para obter a independência, por outro lado, essa mesma elite não atendia os interesses da grande maioria da sociedade. Em algumas comunidades africanas surgiram milícias inspiradas no marxismo, que também desejavam a independência e a tomada do poder.
Dessa forma, dentro do processo de independência, grupos africanos passaram a se enfrentar dentro de um mesmo país como foi o caso de Angola, num movimento que levou à guerra civil. Quase todas essas guerras foram patrocinadas pelos Estados Unidos ou pela União Soviética como parte do processo de Guerra Fria.
Em algumas situações, a própria pluralidade étnica levou e continua levando como acontece em Ruanda ao enfrentamento de diferentes grupos étnicos durante e após as guerras de independência dentro do próprio país.
A luta pela independência se iniciaram em 1956 (ano em que a Tunísia se tornou independente) e terminou em 1974, quando as colônias portuguesas receberam sua autonomia, depois da Revolução dos Cravos em Portugal.
Os últimos países africanos a alcançarem a independência, já na década de 1990, foram a Namíbia e a Eritreia, que tinham ficado sob administração, respetivamente da África do Sul e da Etiópia, ao abrigo de uma antiga tutela da Sociedade das Nações. Hoje ainda acontece o movimento de libertação em algumas regiões qu epleiteiam a sua independência.
Os problemas sociais, políticos e econômicos desses novos países africanos ainda hoje são extremamente graves com governos autoritários que atuam de forma truculenta, mantendo a exploração social e se enriquecendo de forma ilícita.
As antigas fronteiras territoriais impostas pelos europeus na Conferência de Berlim (1885) se mantêm quase inalteradas, gerando rivalidades entre os Estados, tribos e as diversas etnias. Golpes de governo se sucedem em quase todas as partes. O interesse econômico internacional pelas riquezas africanas incentiva as guerras civis, como é o caso do Congo ou entre os países africanos.
Existe o desconhecimento ou a intolerância mundial para com a cultura africana ainda taxada como primitiva, fazendo com que com poucos compreendem efetivamente a riqueza e a importância das tradições africanas. Em alguns casos as ideologias racistas, que se impuseram pelos interesses europeus ainda perduram na mentalidade ocidental e nos próprios países justificando a falta de atitude das organizações internacionais para socorrer esses novos Estados ainda em profunda crise. E por fim, citamos a chegada de grupos radicais islâmicos que agem em diversas regiões levando a guerra, a destruição, mortes e milhares de deslocamentos.
A África hoje é composta por 54 países independentes e uma riqueza inumerável de idiomas e etnias - muitas das quais ainda em conflito.
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