O padre Gaetano Mazzoleni, missionário da Consolata, faleceu em 14 de agosto de 2026, em Alpignano, Itália, aos 89 anos de idade. Viveu 67 anos de profissão religiosa e 61 anos de sacerdócio. Seu nome está intimamente ligado à história da evangelização da Amazônia colombiana e ao acompanhamento dos povos indígenas durante mais de quatro décadas.
Nascido em 1º de março de 1937, em Lecco, Itália, ingressou no noviciado dos Missionários da Consolata em 1957 e foi ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1964, em Turim. Um ano depois, em 11 de setembro de 1965, chegou à Amazônia colombiana, país que se tornaria o principal lugar de sua vida missionária durante 45 anos.
Os primeiros anos de seu ministério missionário transcorreram em Florencia, no departamento de Caquetá, onde atuou como vigário e professor entre 1965 e 1967. Foi justamente nesse período que começou a descobrir a realidade amazônica. Em 1968, foi enviado para Puerto Leguízamo, no Putumayo, iniciando uma relação profunda e duradoura com a região e seus habitantes. Anos mais tarde, recordaria que foi ali que nasceu seu grande amor pela Amazônia e pelos povos indígenas que nela habitam.
Sua presença em Puerto Leguízamo desenvolveu-se em três etapas. A primeira entre 1968 e 1970, quando atuou como pároco e inspetor de educação. A segunda durante os anos 1990. E a terceira entre 2002 e 2011, período em que acompanhou diversos processos pastorais, sociais e educativos no Vicariato Apostólico.
Ao todo, passou mais de quinze anos de sua vida em Puerto Leguízamo, na tríplice fronteira entre Colômbia, Equador e Peru, compartilhando o cotidiano das comunidades amazônicas, percorrendo os rios, visitando as comunidades indígenas e acompanhando o crescimento da população.
Quem o conheceu recorda também uma expressão que repetia frequentemente para descrever o sentido da missão nas fronteiras amazônicas: “O rio nos une... não nos divide”. Com essa frase, resumia sua convicção de que os rios amazônicos, mais do que separar territórios e nações, são caminhos de encontro entre povos, culturas e Igrejas-irmãs, além de um espaço privilegiado para a evangelização e a fraternidade.
A obra pela qual será mais lembrado é, sem dúvida, seu compromisso com os povos indígenas do Caquetá e do Putumayo. Por incumbência de dom Angelo Cuniberti, então Bispo Vigário Apostólico de Florencia, assumiu a direção do Centro Indigenista do Caquetá, uma iniciativa destinada a responder às necessidades de saúde, educação, promoção humana e defesa dos povos originários. A partir dessa responsabilidade, coordenou uma ampla rede de escolas indígenas e desenvolveu programas educacionais inovadores para os povos coreguaje, inga e murui.
Seu objetivo era claro: que os próprios povos indígenas fossem protagonistas de seu futuro. Para isso, impulsionou processos de formação de professores indígenas bilíngues, fortalecimento das organizações comunitárias e reconhecimento dos territórios ancestrais.
Convencido de que a missão exigia uma profunda compreensão das culturas amazônicas, realizou estudos de Antropologia em Bogotá e, posteriormente, em Washington. Sua formação acadêmica transformou-se em um instrumento a serviço da evangelização e do diálogo intercultural.
Sua experiência e compromisso levaram a Conferência Episcopal da Colômbia a confiar-lhe a direção da Seção de Minorias Étnicas, função que exerceu entre 1987 e 1992. Posteriormente, voltou a assumir responsabilidades na Seção de Etnias da Conferência Episcopal entre 1996 e 2000. A partir dessas funções, promoveu uma pastoral indígena e afro-colombiana inspirada nas orientações do Concílio Vaticano II e das Conferências Gerais do Episcopado Latino-Americano.
Seu trabalho também esteve ligado aos primeiros processos de reflexão da teologia indígena na América Latina. Recordava frequentemente sua participação no encontro de Melgar, na Colômbia, em 1968, considerado um dos marcos fundadores da pastoral indígena latino-americana, além de diversos encontros indígenas e amazônicos.
Durante o processo do Sínodo para a Amazônia, realizado em 2019, o padre Mazzoleni ofereceu um dos testemunhos mais significativos de sua vida missionária. Ao recordar os 45 anos vividos na Amazônia colombiana, evocou as palavras de sua mãe antes de partir para a América Latina: “Minha mãe me recomendou que eu quisesse muito bem àquele povo. Foi isso que me guiou durante esses 45 anos. Isso me ajudou a compreender as pessoas, a caminhar com elas e a amá-las.”
Para ele, a chave de toda ação missionária era precisamente essa proximidade humana e espiritual. “Se um missionário não se aproxima com esses sentimentos, é muito difícil compreender este mundo chamado Amazônia”, afirmava.
Em outra reflexão, realizada após o encontro do papa Francisco com os povos amazônicos em Puerto Maldonado, em janeiro de 2018, destacou que os povos indígenas representam uma verdadeira escola de vida para a humanidade contemporânea. Segundo Mazzoleni, as comunidades amazônicas ensinam a distinguir entre o necessário e o supérfluo, a viver em harmonia com a natureza, a valorizar a vida acima da acumulação e a compreender que os bens da criação existem para serem partilhados e não apropriados.
Depois de servir na Colômbia, Equador, Venezuela e República Democrática do Congo, o padre Gaetano retornou definitivamente à Itália, onde passou seus últimos anos na residência Beato Giuseppe Allamano, em Alpignano.
No entanto, seu coração permaneceu sempre na Amazônia. Aqueles que o conheceram recordam um homem simples, apaixonado pela missão, profundamente respeitoso das culturas indígenas e convencido de que a evangelização só é autêntica quando realizada caminhando junto aos povos.
Seu legado permanece vivo nas comunidades indígenas que acompanhou, nos líderes que ajudou a formar, nos processos de etno-educação que impulsionou e na memória agradecida da Igreja amazônica da Colômbia. O padre Gaetano Mazzoleni foi, antes de tudo, um missionário que fez seu o conselho recebido de sua mãe: amar profundamente as pessoas. E, a partir desse amor, construiu uma vida inteira a serviço da Amazônia.
*Pe. Julio Caldeira IMC, missionário da Consolata na Amazônia colombiana, vice-presidente da REPAM e membro do Conselho de Comunicação do CELAM.
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui.