Entre uma piada sobre a sogra de Pedro e uma pergunta destinada a mudar a história da humanidade, dois apóstolos na casa dos 50 voltam a passear idealmente pelas ruas de Roma. Ou melhor, desta vez, literalmente “ad limina Apostoli”. Sem efeitos especiais nem armaduras de heróis. Eles discutem, trocam provocações, questionam-se sobre a fé, o medo e a esperança. E é justamente esse diálogo imaginário o cerne de “Pietro e Paolo a Roma”, o espetáculo que, de terça-feira (16/06) a quinta-feira (18/06), próximo à festa dos dois apóstolos, volta aos palcos na Cidade do Vaticano.
A iniciativa, promovida no âmbito das comemorações do IV Centenário da Dedicação de São Pedro, acontece no teatro ao ar livre montado na Praça Santa Marta, a poucos metros da abside projetada por Michelangelo, um espaço com capacidade para 850 espectadores. Os ingressos gratuitos para as três apresentações se esgotaram completamente. Na noite de encerramento, na quinta-feira, também participarão 70 pessoas carentes de Roma. Na maioria, são pessoas em situação de rua que vivem na região de São Pedro, hóspedes do Palácio Migliori, administrado pela Esmolaria Apostólica, e da Casa Sabotino, administrada pela Binario 95, às quais se juntarão alguns redatores do “Osservatore di Strada”, acompanhantes e voluntários da Paróquia de São Gregório VII.
Escrito por Michele La Ginestra, com direção de Roberto Marafante e trilha sonora original de Emanuele Friello, o espetáculo conta, no palco, ao lado de La Ginestra e Fabio Ferrari, também com Ilaria Nestovito, Matteo Montalto, Brunella Platania e Fabrizia Scaccia, formando um coro de cantores e dançarinos: uma espécie de cenografia viva, adequada e envolvente. A história imagina uma série de encontros entre os dois apóstolos ao longo dos anos que, provavelmente, passaram juntos em Roma antes do martírio.
A peça surgiu em 2024 a pedido de Frei Agnello Stoia, pároco da Basílica de São Pedro, e foi apresentada no final de junho daquele mesmo ano, por ocasião da festa dos padroeiros de Roma, diante da Porta Santa da Basílica do Vaticano. Em junho de 2025, por ocasião do Jubileu, a peça chegou ao Teatro Sistina em uma versão reelaborada. Agora, ela retorna ao Vaticano no âmbito das comemorações dos quatro séculos da fundação da Basílica.
A ideia surgiu de uma pergunta simples e fascinante: o que Pedro e Paulo teriam dito um ao outro se se encontrassem em Roma? Duas personalidades profundamente diferentes — o pescador da Galileia e o intelectual convertido no caminho de Damasco — que, no texto, dialogam com franqueza, ironia e carinho, abordando temas teológicos e humanos por meio de uma linguagem acessível até mesmo para quem não frequenta habitualmente a Igreja. Cenas populares e bem-humoradas se alternam, graças à espontaneidade dos atores, com momentos mais intensos e envolventes. Sobretudo para o público ciente de que os protagonistas estão às vésperas de seu martírio.
Para Michele La Ginestra, autor e intérprete, o cerne da história é justamente a humanidade dos santos. “Eu gostava de pensar que, antes de serem santos, eles eram, acima de tudo, homens”, explica. Uma perspectiva que se repete também ao falar da figura de Pedro: “gostaria que ficasse claro que Pedro era uma pessoa totalmente normal, que cometeu erros como todos nós, que, como todos nós, foi perdoado e se colocou a serviço da Mensagem de Cristo”.
O ator romano destaca ainda o valor da encenação, realizada a poucos passos do Túmulo do Apóstolo. “Estamos falando da história da humanidade no lugar onde essa história se concretizou”. E acrescenta: “estar aqui é algo emocionante”. Ao lado da reflexão, não falta o humor. “Na minha opinião, isso é necessário, porque discursos muito sérios não são ouvidos, porque entediam”, observa La Ginestra, convencido de que uma risada pode abrir caminho para a evangelização e para os temas mais complexos da fé.
No papel de Paulo está Fabio Ferrari, ator que seguiu os passos dos pais e leva ao palco o Apóstolo dos Gentios com uma participação pessoal particularmente intensa. “Sou um convertido tardio, então fiz a primeira comunhão aos 40 anos, por assim dizer. Ultimamente, tenho interpretado com frequência personagens ligados à Igreja. De alguma forma, isso faz sentido. Evidentemente, há algo que me atrai para Jesus, então, para mim, é uma grande alegria”.
Para Ferrari, interpretar Paulo significa confrontar-se com uma figura decisiva para a difusão do cristianismo: “é um homem que converteu um continente sozinho. Muitas vezes me pergunto que voz poderosa teriam essas figuras, capazes de pregar para as multidões sem um microfone”. E encenar essa história no Vaticano acrescenta algo especial: “atuar aqui, obviamente, é uma grande emoção”.
Mas é sobretudo o vínculo pessoal com o personagem que torna essa experiência teatral especial. “Este é um dos espetáculos que mais amei na minha carreira”, confidencia o ator. E conclui com palavras que talvez expliquem melhor do que qualquer crítica o sentido dessa representação: “talvez seja justamente porque aborda temas aos quais cheguei já mais velho, e que sinto profundamente, mas eu me emociono todas as noites”.
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, assine a nossa newsletter clicando aqui e se inscreva no nosso canal do WhatsApp acessando aqui