A guerra gera lucros e consideráveis oportunidades de negócios. Beneficiam-se disso sobretudo alguns países e setores econômicos, e não necessariamente aqueles ligados à economia ilegal. O Financial Times recordou que, nos últimos meses, apesar da crise no Oriente Médio em curso – ou talvez justamente por causa dela –, o conjunto das atividades produtivas globais continuou crescendo em ritmo superior a 3% ao ano.
Mas, se o impulso de que a economia se aproveita em situações de conflitos armados ou crises de diversas naturezas já não é mais um mistério, hoje o que se tornou um negócio é o medo, em torno do qual vai se estruturando uma nova ordem mundial fundada na insegurança e na instabilidade. Não se trata mais de algo material, mas de um bem sobre cujo valor se aposta para o futuro: uma espécie de “futuros”, como nos mercados financeiros, agravado, porém, pela ausência total de risco, que normalmente é característica constitutiva de qualquer investimento. A conclusão é que a paz, em si, já não compensa.
Quem está convencido disso é Vittorio Pelligra, professor de política econômica e diretor do Centro de Ciências Comportamentais e Estatísticas da Universidade de Cagliari, especialista em economia civil e estudioso da aplicação de modelos teóricos por meio do diálogo com a psicologia cognitiva e as neurociências. Em recentes intervenções públicas, ele falou de uma “nova monarquia do medo”.
“Hoje mudou profundamente o modelo de negócios de quem atua no setor da chamada tecnodefesa, que não se baseia mais apenas na produção de armamentos”, afirma em entrevista aos meios de comunicação do Vaticano.
Isso ocorre porque o novo critério dominante – já não operando mais dentro da lógica da dissuasão, pela qual se arma para enviar um sinal aos potenciais adversários sobre os custos que sofreriam ao desencadear um ataque – é o que os especialistas chamam de pre-emption, ou seja, uma espécie de ação preventiva, na qual se tende a preparar-se para algo que poderia acontecer, mesmo que ainda não tenha acontecido e talvez nunca aconteça. Em essência, deve-se manter uma situação de perigo constante.
É justamente na passagem da dissuasão para a prevenção que a insegurança geopolítica se torna o adubo para que esse tipo de indústria prospere, ao mesmo tempo em que multiplica o crescimento das armas e se transforma numa forma de capital da qual nos tornamos dependentes.
Assim, toda a indústria da defesa já não serve mais para garantir maior segurança, mas se desenvolve sobre um estado de insegurança permanente, do qual ela necessita para poder crescer. Estrutura-se uma causalidade circular, graças à qual a instabilidade geopolítica exige novos investimentos, mas esses investimentos têm como objetivo impedir que a insegurança desapareça.
O interesse em que isso aconteça tem nome e sobrenome. Antes de tudo, “o enorme aparato das grandes empresas tradicionais do setor de defesa, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, que reencontraram nesses anos uma nova juventude. Basta olhar suas ações na Bolsa”.
Segundo o The New York Times, em dois meses de guerra no Irã, o Pentágono gastou mais do que o valor destinado anualmente para munições. Para o próximo orçamento federal, Donald Trump pediu que fossem destinados 1,3 trilhão de dólares para a defesa, gerando enormes ganhos para as indústrias produtoras.
O último relatório do Sipri mostra que, entre 2021 e 2025, o aumento global da compra de armas cresceu 9,2%. No mesmo período, a Europa, devido às transferências para a Ucrânia e aos projetos de rearmamento, triplicou suas importações de armamentos, passando a representar 33% do total mundial, contra 12% no quinquênio 2016-2020.
Existe também todo um “ecossistema de empresas de novas tecnologias, ligadas à robótica, inteligência artificial, extração e gestão de dados. A segurança é vista como a capacidade de antecipar, reagir e prever a ameaças mais ou menos concretas”.
Fazem parte desse conglomerado empresas como Palantir e Anduril. A primeira, por exemplo, apresentou no mês passado um balanço trimestral com aumento de 85% na receita em relação ao mesmo período de 2025 e previsão de crescimento de 71% para este ano.
São startups de alta tecnologia que trabalham para muitos governos e departamentos de defesa, mas possuem “características diferentes dos grandes contratantes do Estado, porque fazem inovação e investimentos onde acreditam haver maior lucratividade”. Elas “não são orientadas pelo poder público, mas orientam os investimentos dos governos e podem contar com um fluxo constante de contratos bilionários”.
Além disso, “a conexão entre tecnologia e armamentos hoje é explicitamente teorizada”.
Em seu último livro, Alex Karp, CEO da Palantir, “explica às empresas do Vale do Silício o dever moral que elas têm de trabalhar com a administração pública para tornar o país mais seguro” e defender o Ocidente das ameaças externas.
A tecnologia, escreve Karp, não é um poder neutro, mas geopolítico, e deve tornar-se aliada das democracias para enfrentar as autocracias, como a China, que já a utilizam para se afirmar no mundo.
O pressuposto é que hoje o peso não está apenas nos Estados e exércitos, mas sobretudo em algoritmos, dados, softwares e no uso da inteligência artificial.
Trata-se do capitalismo da vigilância, denunciado pela socióloga Shoshana Zuboff em seu ensaio homônimo de 2019.
Não são poucos os que acreditam que um mundo mais controlado, em que as vidas estejam sob a lente de algum grande irmão, institucional ou não, seja preferível. De George Orwell a Dave Eggers, a literatura distópica produziu relatos proféticos sobre aquilo que hoje se tornou realidade, com ameaças evidentes às liberdades pessoais e à privacidade.
Na base disso está também o mito, construído ao longo dos anos, da transparência a qualquer custo.
“O problema – destaca Pelligra – é sempre quem controla os controladores. Esses instrumentos estão nas mãos de poucas pessoas que escapam totalmente à dinâmica do controle democrático. Portanto, o ‘para quem, por que e como’ realizam determinadas operações são questões absolutamente opacas, que o debate público não consegue interceptar e que a política perdeu a ambição de conduzir.”
A consequência direta é que, “quando o ‘estado de exceção’ se torna a regra, a própria escolha política torna-se supérflua: se a necessidade de rearmamento é apresentada como inevitável, não sobra espaço para alternativas, e os cidadãos apenas se adaptam aos governantes”, que, por sua vez, estão submetidos a uma narrativa imposta externamente, que apresenta o perigo como iminente e inevitável.
Assim, autorizam-se, justificam-se e aceitam-se violações explícitas das liberdades e da privacidade pessoais “em nome de um suposto bem maior”.
A síntese desse pensamento está na ideia do fundador da Palantir, Peter Thiel, segundo a qual a tecnologia decide e a política executa.