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De Mendonça: o Cântico dos Cânticos desperta o amor - Vatican News

Ouvir e reler o Cântico dos Cânticos já é uma primeira resposta ao convite do Papa Leão XIV. Como lembrou o cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a...

De Mendonça: o Cântico dos Cânticos desperta o amor - Vatican News

Ouvir e reler o Cântico dos Cânticos já é uma primeira resposta ao convite do Papa Leão XIV. Como lembrou o cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, referindo-se ao discurso do Pontífice aos participantes do Encontro de Rimini: “O Papa Leão disse a vocês que, no centro da proposta cristã, está a responsabilidade de despertar em cada um o desejo. Estamos aqui para falar do Cântico dos Cânticos a fim de despertar o desejo de ser amado e de amar”. É fundamental, portanto, voltar a esse grande e difícil texto bíblico, em uma época em que, como diz o título da obra da socióloga Eva Illouz, fala-se do “fim do amor”. Citando o famoso poema de W.H. Auden, de Mendonça afirmou que, como cristãos, temos a “responsabilidade de dizer a verdade sobre o amor”.

A força do Cântico dos Cânticos está em sua capacidade de tocar profundamente o coração humano com a verdade nua e crua. “Como lembra o Papa Leão em Magnifica Humanitas – observou o cardeal –, estamos em um momento novo da história, pois, pela primeira vez, as máquinas imitam o homem no discurso do amor. As máquinas não sentem empatia, afeto, amizade, amor, mas são capazes de simular”. E prosseguiu: “Em suas solidões, muitos acreditam que é mais fácil ficar reféns das máquinas do que experimentar, arriscar-se em relações autênticas de amor”. Daí a necessidade de “despertar o desejo de ser amado e de amar”.

Para o poeta Davide Brullo, “a Bíblia e o Cântico, em particular, são nosso texto, são nossa vestimenta, que, porém, não nos reveste, mas nos desnuda”. Essa nudez, observa ele, “obviamente arde”. O poeta se questiona, se pergunta se esse Cântico não é nada mais do que pura beleza, inexplicável, que exige do poeta — de Dante, por exemplo — que se lance em busca de novas palavras para expressar o indizível, que force o verbo “como se fosse um ladrão que entra pela janela”. Eis que o Cântico se torna, para Brullo, “uma busca, uma incursão, uma grande caçada ou, ainda, um seguimento”.

O cardeal de Mendonça destacou que, muitas vezes, o Cântico pareceu surpreendente para os intérpretes, um livro no qual “a palavra Deus é balbuciada apenas uma vez”, um livro que fala da beleza física, em detalhes, inclusive sensoriais, um livro, enfim, que não parece estar em continuidade com a poesia bíblica e seu léxico. E ele repassou algumas das muitas hipóteses sobre sua gênese, desde a egípcia, passando pela mesopotâmica, até a de canto nupcial na região palestina. Ele lembrou que o enigma permanece, mas que nunca se deve esquecer, ao interpretar esse texto, seu contexto, o fato de que ele está inserido na revelação bíblica. É assim que se compreende seu significado profundo: o Cântico nos ensina a altíssima dignidade do ser humano.

“Quando lemos o Cântico dos Cânticos – aprofunda o cardeal –, é impossível não chorar diante desse milagre de beleza e verdade que é o ser humano”. Com suas palavras, aprendemos também a reciprocidade do amor entre o homem e a mulher, mesmo em uma época em que não havia uma relação social simétrica entre os dois sexos. O Cântico dos Cânticos deve ser contemplado como “um ícone do amor”.

Com o Cântico, aprende-se também o sentido profundo da intimidade, aquilo que pertence apenas ao amado e à amada, mas, ao mesmo tempo, esse amor é “cósmico”, tem uma ressonância que o transforma em um cântico das criaturas. O amor é uma nova criação, uma nova geração.

O cântico de amor, explica de Mendonça, faz do homem e da mulher príncipes, mas, ao mesmo tempo, faz deles mendigos que buscam, que se buscam, em sua insuficiência radical: o amor como ferida, busca, escuta, solidão compartilhada, como oração.

O Cântico é um livro sensual e divino ao mesmo tempo. A razão, para o cardeal, está no fato de que “nada é tão desarmado e desarmante quanto o amor, em sua verdade. É a aceitação da incompletude, da vulnerabilidade. É compreender que a vida se constrói na hospitalidade do outro ou não se constrói”. Essa pobreza extrema, aceita como a mais alta alegria, “nos ajuda a compreender Deus, pois, como diz São Paulo, Jesus, sendo rico, tornou-se pobre para encher cada um de nós com sua própria riqueza.

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