Acolher o convite da Encíclica Magnifica humanitas para “superar a teoria da guerra justa”; olhar para a forte transformação "cultural" que facilita a eclosão de novas guerras, graças também aos recursos potencializados pela inteligência artificial; reiterar que a Igreja é alheia a interesses eleitorais, “não recorre à violência verbal e não reivindica privilégios”, mas defende a dignidade humana. Esses são alguns dos conceitos expressos na abertura da segunda sessão do Consistório extraordinário na tarde de sexta-feira, 26 de junho, pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. Uma reflexão profunda sobre a “cultura do poder”, que está no centro do capítulo V da encíclica do Papa Leão.
O primeiro ponto em que o cardeal insiste diz respeito à difusão de uma cultura globalizada que envolve inclusive quem está longe da guerra, mas que “está orientada para uma certa passividade diante dos avanços desenfreados de algumas formas de poder, inclusive devido, em grande parte, aos novos recursos de comunicação enormemente potencializados pela inteligência artificial”.
O cardeal Fernández detém-se, em seguida, na manipulação da Doutrina Social da Igreja, que é utilizada para dar fundamento teórico às guerras mais injustas; “em vez de parar as guerras, ajuda a justificá-las”. O conceito de legítima defesa também é invocado nas chamadas “guerras preventivas” mas, para o Catecismo da Igreja Católica, os limites são claros: um dano duradouro causado pelo agressor; que todos os caminhos percorridos tenham se revelado ineficazes; que uma guerra não se prolongue indefinidamente apenas para evitar uma injustiça; e que haja uma “proporcionalidade” entre o ataque recebido e a resposta defensiva com os seus efeitos.
Mencionando a Gaudium et Spes, o cardeal Fernández sublinha que “a destruição de cidades inteiras não pode ser considerada uma ação defensiva proporcionada”. Cita, a esse respeito, “a enorme desproporcionalidade das intervenções militares em Gaza e no sul do Líbano”, lembra “o enorme número de crianças mortas (em uma proporção muito mais alta em relação a outros países em guerra) e o número de casas bombardeadas” que “nos permitem — destaca o purpurado — falar em destruição total”. “Ainda assim, — prossegue — tanto na Rússia quanto na cooperação dos Estados Unidos nas guerras no Oriente Médio, a justificativa é sempre alguma forma de autodefesa”.
Nesse contexto, o direito internacional humanitário foi esquecido e assiste-se a uma “normalização da guerra”, mas também, como se lê na encíclica, a uma “preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional”, acompanhada de uma grave “perda da memória histórica”. Nesse sentido, as guerras preventivas “invocam unilateralmente possíveis — e não provadas — ações preparatórias de agressões externas”, isso justifica o que “continuamos a ver em Gaza, no Líbano, na Ucrânia e também em outros lugares”. Deve-se, portanto, rever tanto o conceito de legítima defesa quanto o de guerra justa.
Na reflexão do prefeito Fernández, um amplo espaço é dedicado ao problema “cultural” do poder. É denunciada uma batalha cultural, “um trabalho meticuloso, capilar e global que leva à relativização de tudo e que, portanto, acaba por dar ampla liberdade aos líderes violentos”; a partir disso, a exortação para se prestar atenção a três pontos que os bispos não podem aceitar. O primeiro diz respeito ao constante recurso à desqualificação de quem pensa de forma diferente e à construção de medos e ressentimentos que preparam o terreno para novos conflitos. “Violência, cinismo e ataques verbais rancorosos por parte dos líderes políticos, em alguns países, atingiram — destaca o cardeal — níveis inimagináveis há pouco tempo”.
Outro ponto ao qual se deve prestar atenção é o fato de se considerar a paz e o diálogo “como posições utópicas ou irracionais”; por causa disso, as pessoas se habituam à violência política e à guerra, que passa, assim, a ser vista como necessária. “Às vezes, até mesmo os bispos caem nessa armadilha para não serem rotulados como ingênuos”. Por fim, a incoerência como estratégia: “Se um país é inimigo, é condenado como antidemocrático e sancionado de várias formas; mas, se é um país aliado, ignora-se o fato de que nele não há liberdade de expressão, direitos humanos ou democracia”. A referência aplica-se a líderes amplamente criticados no mundo, mas também à União Europeia, que aplica sanções econômicas a um país enquanto envia ajuda financeira e armas a outro. São contradições que nascem em nome da conveniência e que resultam na falta de um contexto real e estável de verdade e valores.
“A boa notícia neste cenário sombrio — afirma o cardeal Fernández — é que hoje se abre um espaço novo e incomum para a Doutrina Social da Igreja. O nosso ensinamento social, na verdade, possui uma integridade, uma harmonia e uma coerência que não se encontram na política, nas propostas ideológicas ou em outros setores da sociedade”. A mensagem do Evangelho opõe-se à guerra, está ao lado dos vulneráveis e é a favor da vida; portanto, “a Igreja é alheia aos interesses eleitorais, não recorre à violência verbal e não reivindica privilégios. Proclama sempre o amor salvífico de Cristo, mas nunca o separa da constante defesa da dignidade humana em qualquer circunstância”. Em conclusão, a mensagem é direcionada à Igreja de modo geral. “Se estivermos atentos para não ceder à cultura do poder — destaca o prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé — e se nos esforçarmos para alimentar a cultura alternativa da fraternidade e do bem comum. Só assim será possível a plena inculturação do Evangelho em nossos países e em nossos tempos”.
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