“O cuidado com o mar nunca pode ser separado do cuidado com a pessoa humana”, pois “proteger a vida marinha” e “defender a dignidade e a segurança” daqueles que trabalham no mar “não são prioridades opostas, mas sim aspectos de um único compromisso moral em prol do bem comum e da prosperidade tanto das pessoas quanto do ambiente marinho que compartilhamos”. É o que escreve o cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, na Mensagem para o Domingo do Mar de 2026, que será celebrado em 12 de julho, e divulgada nesta quarta-feira, 24 de junho. Ao desenvolver o tema “Para além da carga e do comércio: o rosto humano do mar”, o documento ressalta, de fato, que, todos os dias, os trabalhadores dos mares e dos cursos d’água “tornam-se pontes entre nações, culturas, religiões e economias”. Mas também que os oceanos “não são apenas rotas comerciais ou fontes de riqueza econômica, mas fazem parte da criação de Deus, confiada à responsabilidade e aos cuidados do homem”. E, por fim, que a Igreja, assim como Jesus no Lago de Tiberíades em meio à tempestade, é chamada “a subir na barca” para “acompanhar, ouvir, consolar e defender a dignidade humana” de todos aqueles que vivem e trabalham no mar.
O cardeal Czerny, em mensagem, lembra que por trás do “comércio global, da indústria pesqueira, dos portos, das vias navegáveis internas e das redes marítimas” se esconde um grande número de “marinheiros, pescadores, trabalhadores portuários e comunidades marítimas, cujo trabalho sustenta as nações, une os povos, garante meios de subsistência e proporciona sustento às famílias em todos os continentes”. A crise no Estreito de Ormuz, ressalta ele, “lembrou ao mundo quão profunda é a dependência da humanidade em relação ao mar e àqueles que nele trabalham”. Por ocasião do Domingo do Mar, “a Igreja lembra esses homens e essas mulheres não apenas pelo trabalho que realizam ou pelas mercadorias que transportam, mas como pessoas criadas à imagem e semelhança de Deus e dotadas de uma dignidade inviolável”.
O prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral prossegue explicando que, atualmente, muitos desses trabalhadores “continuam enfrentando incertezas e dificuldades crescentes” e que o mar “está cada vez mais marcado por tensões, insegurança, guerras e medo”. Muitos tripulantes, lembra ele, “foram recentemente afetados por conflitos armados que, de fato, os confinaram a bordo, causando escassez de alimentos e até mesmo medo pela própria vida”, o que agravou seu “sentimento de solidão” e “isolamento social”. De fato, mesmo em uma época de “maior comunicação digital”, denuncia a Mensagem, muitos marítimos “vivem um isolamento cada vez mais profundo”, devido a “tripulações reduzidas, períodos de descanso em terra mais curtos, horários de trabalho exaustivos” que “muitas vezes deixam pouco espaço para o descanso, a fraternidade ou encontros humanos autênticos” que os façam se sentir acolhidos, ouvidos e amados.
De fato, como lembra o Papa Leão XIV em sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas, no n.º 180, os sistemas tecnológicos e econômicos nunca devem reduzir a pessoa humana a “um dado, uma engrenagem ou uma mercadoria”, mas devem sempre salvaguardar “a dignidade, a liberdade e a humanidade de cada indivíduo”. Um navio, portanto, nunca deve “tornar-se um lugar de isolamento silencioso ou de indiferença”, escreve Czerny, mas, pelo contrário, “a vida marítima pode ser um testemunho vivo de que pessoas de diferentes nações, culturas e confissões ainda são capazes de fraternidade, solidariedade, respeito mútuo e interdependência pacífica”. Pois, explica ele, “os oceanos não separam as pessoas, mas as unem”, e os trabalhadores do mar — ou, de qualquer forma, da água — tornam-se “pontes entre nações, culturas, religiões e economias”. Em um mundo ferido por conflitos e fragmentação, explica a Mensagem, suas vidas “testemunham a possibilidade duradoura de cooperação, solidariedade e coexistência pacífica”. E a Igreja, por meio de sua presença pastoral, “procura lembrar a cada marítimo, pescador e trabalhador do mar que eles nunca são esquecidos e nunca estão sozinhos”.
A segunda reflexão do documento diz respeito ao fato de que os oceanos “não são apenas rotas comerciais ou fontes de riqueza econômica, mas fazem parte da criação de Deus, confiada à responsabilidade e ao cuidado do homem”. “Eles alimentam as populações” e nos lembram “da beleza e da fragilidade da nossa casa comum”, mas hoje os mares “sofrem cada vez mais devido à poluição, à exploração, à degradação ambiental e às consequências de uma atividade humana irresponsável”. E quando os oceanos sofrem, sofrem com eles, em especial, “os pescadores, as comunidades costeiras e todos aqueles cuja vida depende diretamente da saúde dos ecossistemas marinhos”. Como nos lembra Leão XIV na Magnifica Humanitas, nos números 12 e 92, ressalta Czerny, o autêntico progresso “nunca pode ser medido exclusivamente em termos de eficiência, progresso tecnológico ou lucro, mas deve sempre ser orientado pela dignidade da pessoa humana, pelo bem comum e pela responsabilidade para com as gerações futuras”.
Por isso, se, em seu trabalho, os marítimos e os pescadores enfrentam a solidão, o cansaço, o perigo e a separação das famílias, “o cuidado com o mar nunca pode ser separado do cuidado com a pessoa humana”. Pois proteger a vida marinha e “defender a dignidade e a segurança desses trabalhadores” não são prioridades opostas, mas “aspectos de um único compromisso moral em prol do bem comum e da prosperidade tanto das pessoas quanto do ambiente marinho que compartilhamos”. Jesus permaneceu com os discípulos quando a tempestade ameaçava seu barco e, hoje, continua “a estar ao lado daqueles que navegam pelos mares”, como se lê na Mensagem. E a Igreja “é chamada a tornar visível essa proximidade por meio de sua presença e de seu ministério”.
Por meio das capelanias, dos ministérios marítimos e de toda a tradição do Apostolado do Mar, a Igreja — reitera o prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral — deseja lembrar “a cada marítimo, pescador, trabalhador marítimo e profissional da navegação interior que eles não são esquecidos, que são valorizados e que nunca estão sozinhos”. E isso vale para pessoas de todas as nacionalidades e credos. Mas este apostolado tem a gratidão de “oferecer orações, cuidado pastoral e os sacramentos aos marítimos católicos, que constituem uma parte significativa das tripulações e dos oficiais que chegam a portos distantes de seus lares”. Para concluir, após expressar gratidão aos trabalhadores do mar e aos agentes pastorais pelo trabalho e serviço, o cardeal os confia à proteção maternal de Maria, Estrela do Mar, e convida a rezar “pela segurança, dignidade, paz e esperança de todos aqueles que viajam e trabalham nas águas”.
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