Oitenta e três atos de assédio em noventa dias. Destes, a maioria ocorreu em Jerusalém, sobretudo na Cidade Velha. Trata-se, principalmente, de cuspidelas, agressões físicas, ameaças e abusos verbais, atos de vandalismo, lançamento de lixo e objetos nos pátios dos mosteiros, bem como provocações on-line (comentários no Google Maps sobre locais cristãos com versículos bíblicos que invocam a destruição de locais de culto não judaicos). É o que emerge do relatório, divulgado nos últimos dias, do Religious Freedom Data Center (RFDC) sobre os incidentes contra cristãos em Israel no trimestre de abril a junho de 2026, elaborado por Yisca Harani, diretora do próprio organismo de investigação. Trata-se de episódios que ocorrem frequentemente à luz do dia, de forma ostensiva, por vezes com pais que encorajam os filhos a imitá-los. E quem paga o preço são as comunidades cristãs residentes.
"No passado dia 28 de abril, uma freira foi empurrada para o chão no Monte Sião, mas o pico de incidentes foi registrado durante o Shavuot, o Yom Yerushalayim e a Flag March, bem como durante a procissão de entrada do novo núncio apostólico", revela o relatório, que assinala uma crescente ousadia e arrogância por parte dos autores, que agem abertamente sem receio de consequências. "Constatamos uma ausência de representação simbólica cristã no espaço público de Jerusalém (em contraste com a forte presença de símbolos judaicos)", continua o estudo de Yisca Harani, que recolhe informações junto das instituições religiosas e das comunidades cristãs com as quais mantém contatos regulares através de uma rede de voluntários. "A nossa missão é apoiar as vítimas na apresentação de queixas à polícia e às autoridades competentes, bem como na documentação e na recolha de informações relativas a cada caso. Os voluntários encarregados dos contatos no terreno ocupam-se também dos casos de vandalismo de placa pública, graffitis ou atos de vandalismo: acompanham o caso até à conclusão das reparações, continuando a monitorizá-lo em colaboração com as autoridades competentes. Estes mesmos voluntários — continua o texto — são mobilizados, em particular, durante as festas religiosas e as procissões cristãs na Cidade Velha de Jerusalém, com o objetivo de observar, documentar e contribuir para a prevenção de incidentes".
Foi precisamente na sequência da agressão sofrida pela religiosa no Monte Sião que foi ativado um serviço de acompanhamento protetor para o clero e os religiosos na Cidade Velha. O serviço conta com o apoio do IRAC (Israel Religious Action Center), que presta assistência jurídica nas queixas apresentadas à polícia em nome do RFDC e do JPPI (Jewish People Policy Institute). "Exortamos a Câmara Municipal de Jerusalém a reconhecer que a ausência de uma representação visível e simbólica da presença cristã na esfera pública contribui diretamente para as manifestações de hostilidade por parte de cidadãos judeus em relação aos cristãos. Desde o complexo municipal até à Porta de Jaffa, o espaço público reflete de forma evidente a presença judaica, por meio de cartazes sobre temas judaicos, mensagens de felicitações por ocasião das festas e projeções de imagens e vídeos relacionados com a história e a tradição judaica nas muralhas da cidade", salienta o estudo e, uma vez que a Cidade Velha inclui dois bairros cristãos, "seria igualmente oportuno que também a presença cristã encontrasse uma representação visível no espaço público", prossegue.
Mas os ataques a símbolos religiosos também afetam locais fora das fronteiras: "Recordamos a destruição da estátua de Jesus e a profanação de uma estátua da Virgem Maria no sul do Líbano. As Forças de Defesa de Israel têm a responsabilidade de educar os seus soldados e de estabelecer normas básicas de conduta em relação às comunidades religiosas e aos locais sagrados. Esperamos que estes episódios sejam devidamente tratados no seio das forças armadas". Daí a intervenção do organismo dirigido por Yisca Harani: "Na sequência de denúncias relativas a soldados que ridicularizavam ou demonstravam falta de respeito para com os cristãos durante uma visita a Jerusalém, contatamos o Gabinete do Responsável pela Formação das Forças de Defesa de Israel. Congratulamo-nos com o fato de daí ter surgido uma cooperação educativa construtiva: um documento informativo, elaborado pela Hotline para os guias que acompanham os grupos militares em Jerusalém, foi aceito e divulgado junto das instâncias competentes. O documento está disponível no nosso site".
As visitas escolares e as viagens pedagógicas não estão isentas de agressões: "Nos últimos anos, milhares de grupos escolares visitaram Jerusalém no âmbito de programas promovidos e financiados por ministérios governamentais. Tal como acontece frequentemente também com os grupos militares, a maioria dos estudantes recebe uma preparação mínima ou nula sobre a presença cristã viva na cidade. Consequentemente, o encontro com os cristãos revela-se, por vezes, uma surpresa e pode dar origem a reações hostis. Na ausência de uma preparação adequada, os estudantes manifestaram hostilidade em relação a locais e pessoas cristãs, mesmo durante viagens pedagógicas em outras zonas do país. É, portanto, necessário um esforço educativo coordenado que envolva os organizadores das viagens escolares e os guias turísticos, em particular no que diz respeito às visitas a Jerusalém", conclui o relatório.
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