A mensagem foi proferida durante a receção oficial da Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, realizada na Nunciatura Apostólica, em Pretória, a 29 de junho, precisamente na véspera das manifestações nacionais convocadas contra os migrantes em situação irregular.
Perante membros do Corpo Diplomático, representantes do Governo, bispos, sacerdotes, religiosos e convidados, o representante da Santa Sé concluiu a sua intervenção com palavras que ganham particular atualidade perante o clima vivido no país.
"Ao celebrarmos a Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, rezemos para que o seu testemunho nos inspire a ser construtores da paz, servidores da justiça e promotores da dignidade humana."
O apelo surge numa altura em que várias comunidades sul-africanas vivem um ambiente de crescente polarização em torno das questões migratórias. Embora muitas das manifestações tenham decorrido de forma pacífica, registaram-se episódios de violência, intimidação e confrontos em diferentes regiões do país, revelando as profundas inquietações sociais relacionadas com a imigração, o desemprego e a insegurança.
Sem fazer qualquer referência direta às manifestações previstas para o dia seguinte, Dom Jagodziński centrou a sua reflexão na Doutrina Social da Igreja, recordando que toda a ação política, económica e tecnológica deve colocar sempre a pessoa humana no centro.
Referindo-se à primeira Encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana no tempo da inteligência artificial, o Núncio sublinhou que o documento não trata apenas dos desafios colocados pelas novas tecnologias, mas sobretudo da necessidade de proteger a dignidade humana.
"O Santo Padre recorda-nos que todo o desenvolvimento científico, económico e político deve permanecer ao serviço da dignidade humana e do bem comum."
Segundo o Arcebispo, a Encíclica reafirma princípios fundamentais da doutrina social da Igreja e da ação diplomática da Santa Sé: o primado da pessoa humana, a cooperação internacional, a defesa dos direitos humanos, a construção de estruturas económicas mais justas e a solidariedade para com os mais pobres e vulneráveis.
Dom Jagodziński chamou igualmente a atenção para a advertência do Papa contra aquilo que designa por "cultura do poder", caracterizada pela lógica da dominação, pela rivalidade geopolítica, pela polarização ideológica e pela banalização da guerra.
Em alternativa, o Santo Padre propõe a construção de uma "Civilização do Amor", fundada na solidariedade, na fraternidade e na confiança.
"Cada pessoa deve ser considerada não como um meio para atingir um fim, mas como um sujeito dotado de uma dignidade inviolável concedida por Deus", afirmou o Núncio.
O representante pontifício estabeleceu também uma ponte entre a Doutrina Social da Igreja e a tradição africana do Ubuntu, considerando que ambas convergem numa mesma visão da pessoa humana.
"A filosofia do Ubuntu, que reconhece a nossa humanidade comum e a responsabilidade mútua, encontra uma convergência natural com a visão cristã da fraternidade. Ambas recordam-nos que nenhuma nação, nenhuma comunidade e nenhum indivíduo pode prosperar isoladamente."
O Arcebispo recordou ainda a visita do Presidente Cyril Ramaphosa ao Vaticano, em novembro passado, durante a qual foi reconhecida a importante contribuição da Igreja Católica para a educação, os cuidados de saúde, a reconciliação e o desenvolvimento social na África do Sul.
Segundo o Núncio, a ênfase colocada pelo Presidente na solidariedade, na cooperação multilateral e no bem comum está em plena sintonia com a missão da Santa Sé e com o tema da Presidência sul-africana do G20: "Solidariedade, Igualdade e Sustentabilidade".
Reconhecendo os desafios enfrentados pelos governos na gestão da migração, da segurança e das dificuldades económicas, Dom Jagodziński recordou que uma resposta verdadeiramente humana não pode dissociar-se da justiça, da verdade e da caridade.
"O Papa Leão XIV encoraja-nos a construir uma Civilização do Amor através de gestos concretos: rejeitando o ódio e a polarização, promovendo a justiça, escutando as vítimas, fortalecendo a diplomacia e a cooperação multilateral e promovendo o diálogo entre povos, culturas e religiões."
No final da sua intervenção, o Núncio apresentou a própria história da África do Sul como um sinal de esperança para o mundo.
"Nascida do diálogo, da reconciliação e do triunfo da esperança sobre a divisão, esta Nação oferece ao mundo um poderoso testemunho de que mesmo os conflitos profundamente enraizados podem ser superados através do respeito mútuo e de uma liderança corajosa."
As palavras do representante da Santa Sé foram pronunciadas poucas horas antes das manifestações realizadas em diversas províncias sul-africanas.
Segundo informações divulgadas pelas autoridades e pela comunicação social, os protestos decorreram maioritariamente de forma pacífica, embora tenham sido registados incidentes de violência em algumas localidades. Em Hillbrow, Joanesburgo, duas pessoas ficaram feridas na sequência de disparos efetuados contra manifestantes, levando ao destacamento das Forças de Defesa Nacional para reforçar a segurança.
Noutros pontos do país, a polícia interveio para impedir tentativas de encerramento de estabelecimentos pertencentes a cidadãos estrangeiros e ações de fiscalização levadas a cabo por manifestantes, recordando que a aplicação da legislação migratória compete exclusivamente às autoridades competentes.
As autoridades anunciaram igualmente a detenção de mais de 900 pessoas durante operações realizadas em todo o país, enquanto milhares de cidadãos estrangeiros iniciaram processos de repatriamento voluntário para países como o Uganda, Malawi, Zimbabwe, Moçambique e Gana. Entretanto, os organizadores dos protestos anunciaram a intenção de manter manifestações semanais, apelando ao Governo para reforçar as medidas relativas à imigração irregular.
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