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A Verdade de Santo Agostinho na era da inteligência artificial

Agostinho era muito interessado em filosofia e buscava respostas para questões sobre a existência humana, a verdade e o sentido da vida. Apesar da educação cristã recebida de sua mãe, d...

A Verdade de Santo Agostinho na era da inteligência artificial

Agostinho era muito interessado em filosofia e buscava respostas para questões sobre a existência humana, a verdade e o sentido da vida. Apesar da educação cristã recebida de sua mãe, durante muitos anos Agostinho se afastou da fé cristã.

Sua mãe, Mônica, continuou rezando por sua conversão durante muitos anos. Em 386, enquanto vivia em Milão, Agostinho passou por uma profunda transformação espiritual. Influenciado pelos ensinamentos do bispo Santo Ambrósio e por suas próprias reflexões, decidiu abandonar sua antiga vida e seguir o cristianismo.

Em 387, Agostinho foi batizado por Santo Ambrósio. Depois disso, voltou para o norte da África e passou a dedicar sua vida à Palavra de Deus. Em 391, foi ordenado sacerdote e, alguns anos depois, tornou-se bispo de Hipona, cidade localizada na atual Argélia.

Como bispo, Agostinho escreveu muitas obras importantes sobre a fé cristã, a filosofia, a moral e a sociedade. Entre seus livros mais conhecidos estão Confissões, em que conta sua trajetória pessoal e espiritual, e A Cidade de Deus, uma importante reflexão sobre a história e a relação entre a sociedade humana e a fé.

Santo Agostinho morreu em 28 de agosto de 430, durante um período de conflitos que atingiam a cidade de Hipona. Após sua morte, seus ensinamentos continuaram influenciando profundamente o cristianismo e a filosofia ocidental. Ele é considerado um dos grandes Doutores da Igreja e é celebrado pela Igreja Católica em 28 de agosto.

A vida de Santo Agostinho é lembrada principalmente como uma história de busca pela verdade, mudança e conversão. Sua trajetória mostra como uma pessoa pode passar por diferentes caminhos antes de encontrar aquilo que considera o verdadeiro sentido de sua vida.

Nos tempos atuais, o mundo vive um grande dilema sobre a inteligência artificial (IA), criada com a finalidade de facilitar nossas vidas. Mas o problema começa quando deixamos de enxergá-la como uma ferramenta e passamos a tratá-la como uma autoridade absoluta.

Não obstante, a primeira encíclica do Papa Leão XIV, intitulada Magnifica humanitas, recorre sobre a importância de proteger a dignidade e o valor da pessoa humana na era da IA.

Dessa maneira, para melhor compreender o assunto, a Rádio Vaticano - Vatican News conversou com o frei Welton Cavallini, da Ordem Agostiniana Recoleta, que atua na Paróquia Santo Agostinho e Santa Rita de Cássia, no Rio de Janeiro. Ele falou sobre a relação entre a verdade agostiniana e a era da Inteligência Artificial.

Para começar a entrevista, frei Welton aborda a verdade de Santo Agostinho. Assim comentou:

“Eu começaria dizendo que, para Santo Agostinho, a verdade não é uma propriedade privada do indivíduo e ninguém pode dizer, autenticamente, "a verdade é minha" como se fosse uma propriedade ou um proprietário dela. Para Santo Agostinho, acontece justamente o contrário, pois nós é que somos chamados a pertencer à Verdade. Somos participantes da verdade que é Deus. Esse ponto é extremamente importante para o nosso tempo, porque vivemos numa sociedade onde muitas vezes a verdade é confundida com opinião. “Eu tenho a minha verdade”, muitos falam, “Você tem a sua verdade. Cada um acredita naquilo que quiser.”. Outras pessoas dizem: “Agostinho respeitaria profundamente o caminho interior de cada pessoa, mas não aceitaria de maneira nenhuma reduzir a verdade a uma preferência individual”. Uma das frases mais conhecidas de Santo Agostinho, que ele escreve na "De Vera Religione", (A Verdadeira Religião), ele fala: “não saia de ti; volta para dentro de ti mesmo; no homem interior, habita a verdade".

É preciso compreender bem essa frase Agostinho. Ele não está dizendo “entre dentro de você e invente a sua verdade”, mas está dizendo “entre em você para encontrar uma verdade que é maior do que você”. A interioridade Agostiniana não termina no próprio ego. Ela é o caminho de transcendência. Eu entro dentro de mim mesmo e descubro o que existe em mim. Por isso, diante da inteligência artificial, Agostinho provavelmente faria uma distinção fundamental: uma máquina pode produzir uma afirmação verdadeira sem viver na verdade. Pode ser uma coisa correta, pode organizar conhecimento, pode produzir argumentos, mas a relação humana com a verdade inclui consciência, liberdade, responsabilidade, amor e transformação interior. Interior é o carisma agostiniano. Você é uma verdade e juntos, não eu contra você, mas uma comunidade de irmãos que busca. Por isso, Santo Agostinho disse: uma só Alma e um só coração orientados para Deus, como aparece na regra de Santa Agostinho. Isso muda completamente o modo de discutir.”

Ademais, frei Welton, ao ser perguntado sobre como o conceito de bem e mal em Santo Agostinho poderia orientar o desenvolvimento e o uso responsável da IA, ele ressaltou que "para Santo Agostinho, uma das ideias mais importantes é que tudo aquilo que Deus criou possui algum bem. O mal não é uma substância criada por Deus. O mal é uma privação do bem, uma corrupção, uma desordem daquilo que em si possui bondade.

Santo Agostinho escreveu algumas obras e nessas obras já afirmaram que aquilo que chamamos mal não pode existir sem algum bem, porque o mal é corrupção de um bem. Essa visão é muito importante para pensar na tecnologia. Eu não diria que a inteligência artificial é má, isso seria filosoficamente pobre e pouco agostiniano. Também não diria jamais que a inteligência artificial é boa simplesmente porque é tecnologicamente avançada, isso também seria insuficiente. A pergunta agostiniana seria: que ordem do bem essa tecnologia está servindo?

Uma tecnologia pode possuir uma enorme capacidade de ser utilizada de maneira desordenada, por exemplo: a IA pode ajudar na educação, pode ampliar o acesso ao conhecimento, pode auxiliar pesquisas, pode ajudar pessoas com deficiência, pode melhorar processos médicos, pode facilitar até serviço, tudo isso pode representar bens reais, mas a mesma tecnologia pode ser utilizada para manipular, enganar, discriminar, vigiar injustamente, humilhar, produzir desinformação, reduzir pessoas a dados, substituir irresponsávelmente decisões humanas. Portanto, o problema moral não está simplesmente na existência da tecnologia, mas está na ordem do amor e da vontade que dirige seu uso.

Agostinho faz uma distinção importante em "A Doutrina Cristã", (De doctrina Christiana), entre usar e fruir, a realidade que deve ser utilizada com meios, e existe aquilo que constitui o fim último da existência. A tecnologia deve servir à pessoa, a pessoa não deve se transformar para servir a tecnologia. Então, eu colocaria quatro perguntas agostinianas diante de qualquer sistema de inteligência artificial: Isso preserva a dignidade da pessoa? Isso promove o bem comum? Isso aumenta a liberdade? Está a serviço do amor ou apenas do poder e da eficiência?"

Aplicado ao nosso tempo, essa frase possui uma força enorme. A inteligência artificial trabalha muito bem com aquilo que pode ser convertido em dados, como por exemplo preferências, padrões, comportamentos, probabilidades de hábitos históricos e de linguagem, mas uma pessoa é muito mais do que a soma dos dados disponíveis sobre ela. Esse ponto precisa ser defendido, a pessoa humana precisa ser defendida. Eu não sou apenas aquilo que um algoritmo consegue prever sobre mim. Dignidade não depende do meu desempenho, meu valor não depende da minha produtividade, meu valor não aumenta porque sua inteligente e não diminui porque tenho limitações. Essa uma questão decisiva, pois se começarmos a avaliar o mundo segundo a lógica das máquinas, eficiência, velocidade, cálculos, desempenho, corremos o risco de transformar pessoas em funções. Agostinho não se recordaria que o centro da pessoa está mais fundo.

Existe, para Santo Agostinho, um homem interior e existe um belíssimo princípio agostiniano que pode ser aplicado aqui: a pessoa deve ser encontrada na interioridade, mas a interioridade verdadeira produz a comunhão. O carisma agostiniano não produz indivíduos fechados em si mesmo, mas produz comunidade. A regra de Santo Agostinho apresenta o ideal de viver:  uma só alma e um só coração orientados para Deus. Essa expressão oferece um critério extraordinário para IA: Essa tecnologia aproxima ou fragmenta? Humaniza ou isola? Promove comunhão ou transforma relações em consumo? Serve a pessoas vulneráveis ou as exclui? Protege a pessoa ou transforma a pessoa em matéria-prima econômica? A dignidade existe quando a inteligência artificial continue sendo colocada a serviço do humano integral."

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