A história de Seck Baye Fall — nome que ele prefere que se use — é a de muitos jovens senegaleses, pelo menos até certo ponto. Depois, torna-se a história dele, de um rapaz que se tornou pai na Itália, decidido a ajudar os outros e pronto para voltar para casa, na sua África, assim que possível.
Nós o encontramos em Lampedusa, no cais Madonnina, em frente ao mais famoso cais Favaloro, pois ali, aos pés da grande estátua da Virgem que vigia o porto de Lampedusa, acaba de atracar um barco carregado com cerca de 90 migrantes resgatados por uma ONG. Nós o observamos enquanto ele se prepara para recebê-los, junto com outros profissionais: ele aquece uma bebida, desembala os chinelos que dará aos recém-chegados, troca algumas palavras com os membros do Fórum Lampedusa Solidale, do qual faz parte. Em seguida, ele observa quem desce da longa embarcação à vela: alguns estão envoltos em cobertores térmicos, outros cambaleiam, algumas mães seguram uma criança nos braços, e os mais jovens sorriem apesar de tudo. “Homem. Mulher. Homem. Menor. Mulher”, recitam os agentes da Frontex, enquanto começam as perguntas; e à frieza dos números, justamente Seck, as freiras e os agentes civis procuram acrescentar calor humano, proximidade, presença. Ele fala vários dialetos africanos e ouvir a sua própria língua depois de uma viagem tão longa é um conforto: nós o vemos com sua roupa colorida, um chapéu, óculos escuros e muitos colares, misturando-se entre os migrantes, e entendemos que é isso que ele quer: ficar com quem chega da África antes que a Cruz Vermelha leve todos para o centro de acolhimento.
Assim como muitos jovens pescadores do Senegal, Seck também foi transformado pelos traficantes de pessoas em driver, aproveitando-se da profunda crise do setor pesqueiro local, causada pela pesca industrial intensiva com embarcações europeias e chinesas e pelos acordos de exploração firmados pelo governo senegalês. A incursão ilegal de grandes embarcações em zonas reservadas no Senegal é uma das principais preocupações dos pescadores: os grandes navios estão sempre presentes e os pescadores que constroem seus barcos de madeira, as pirogas, perdem seus meios de subsistência e, por isso, decidem ir embora.
Na África — conta o rapaz — não se estuda, não se trabalha, não se tem acesso à formação, e precisamos de dinheiro que não temos se perdermos o emprego. Que futuro resta, então, para os jovens se o governo não se preocupa com a gente e eles não conseguem trabalhar? Fugir. Há dois caminhos: o primeiro por terra, em direção ao Mali ou à Guiné, depois ao Níger e à Líbia, de onde se parte para Lampedusa. O outro, no Atlântico, em direção às Ilhas Canárias. “Eu fiz isso, mas foi só Deus que me fez chegar a Lampedusa. Esse não deve ser o caminho”.
Seck tinha três companheiros quando partiu de sua aldeia no Senegal, em 27 de setembro de 2014, mas os perdeu durante as transferências dentro das prisões líbias, onde ficaram detidos por dois anos e de onde ele não sabe se eles sobreviveram. “Na prisão na Líbia, sofri muito, muito mesmo”. Ser um “capitão” para mim — repete várias vezes com seu sotaque italiano hesitante — "significa trabalhar com as próprias mãos nos barcos de madeira com os quais se pesca, significa estar à frente de um grupo de trabalho; não somos nós os responsáveis pelos naufrágios. Quem organiza as viagens da Líbia, quem recebe o dinheiro, quem deveria responder pelas mortes no mar são outros, não são os capitães, e aqui todos sabem disso muito bem. Nós somos drivers, colocam os barcos nas nossas mãos e nos mandam partir, mas somos como todos os outros que tentam fugir em busca de uma vida melhor".
“O que vi com meus próprios olhos... acho que nunca mais verei coisas tão horríveis”: é assim que ele resume sua passagem pela Líbia e a viagem de barco para a Itália, onde chegou e cumpriu três anos de prisão em Palermo como contrabandista de migrantes. Ao sair da prisão em 2016, porém, ele conhece primeiro o Ir. Biagio Conte e, depois, os jovens de Baye Fall, que mudam sua vida. Eles trabalham em projetos dedicados aos migrantes que vivem nas ruas ou que estão presos em condições de isolamento. Com esses jovens, Seck decide ficar para fazer algo. “Sinto-me imigrante e quero dar minha contribuição para que não aconteça aos outros o que aconteceu comigo”.
Além de informar aqueles que, na África, sonham com algo que, na realidade, não encontrarão do outro lado do mar, Seck hoje, em Palermo, faz um pouco de tudo: cozinha e distribui comida durante o Ramadã para quem vive nas ruas; visita jovens africanos na prisão; tenta, por meio de nomes e números, restabelecer o contato com as famílias no Senegal; organiza atividades de solidariedade contra a criminalização e para ajudar seu país na luta contra o desemprego. “Nunca fui o tipo de pessoa capaz de fazer algo que te leve para a prisão”.
Por que partiu e por que tantas pessoas como você deixam sua terra natal, Seck? "Deixar a terra natal não é algo de que eu goste — ele nos diz —, mas quem parte, o faz por um motivo: porque realmente não tem alternativa. Mas a Europa não é como a imaginamos. Não é mais um lugar seguro: tanta televisão distorce a realidade e os jovens na África acham que aqui a riqueza e o trabalho estão ao alcance das mãos, que tudo o que você precisa está disponível. Infelizmente, não é assim. Em vez disso, quando chegamos, fazemos coisas que na África nunca fizemos: trabalho informal nos campos, na limpeza, nas cozinhas, exploração, uma vida à margem da legalidade, dificuldade para conseguir documentos e contratos — essa é a realidade para quem chega à Itália. Eu não queria acreditar quando meus tios, que já tinham partido para a Europa, me contavam isso — confessa ele — e eu quis partir, mas tive apenas sorte; só graças a Deus cheguei aqui, me casei e construí uma família. Mas agora tento fazer com que meus familiares e os outros jovens entendam que o mar não é a solução certa. Sofri para chegar aqui, sofri quando cheguei. E meu desejo continua sendo voltar para casa. Por enquanto não posso fazer isso, mas aquela é a minha terra e é para lá que desejo voltar, mais cedo ou mais tarde".
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